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	<title>Journal de Etica y Cine</title>
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		<title>Shame, un film-que-nombra</title>
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		<dc:date>2018-05-13T00:17:04Z</dc:date>
		<dc:format>text/html</dc:format>
		<dc:language>es</dc:language>
		<dc:creator>S&#233;rgio Laia</dc:creator>



		<description>&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Resumen&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;La perspectiva de este escrito propone pensar los s&#237;ntomas de la &#233;poca a partir de lo que &lt;i&gt;Shame&lt;/i&gt; nos ense&#241;a sobre lo que se nomina como &#8220;adicci&#243;n sexual&#8221;. La dimensi&#243;n del cuerpo, la satisfacci&#243;n y el goce es abordada desde una lectura del desorden en lo real, producto de los efectos del capitalismo y la ciencia. El autor recorta y trabaja detalles del film que versan sobre las soledades contempor&#225;neas y transmite lo que la cl&#237;nica lacaniana puede decir sobre ello.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Palabras clave:&lt;/strong&gt; Adicci&#243;n sexual | Goce | Cuerpo | S&#237;ntomas contempor&#225;neos.&lt;/p&gt;

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&lt;a href="https://journal.eticaycine.org/-Volumen-6-No-2-" rel="directory"&gt;Volumen 06 | N&#186; 2&lt;/a&gt;


		</description>


 <content:encoded>&lt;div class='rss_chapo'&gt;&lt;p&gt;Escola Brasileira de Psican&#225;lise y Universidad FUMEC&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;
		&lt;div class='rss_texte'&gt;&lt;p&gt;&#201;ste art&#237;culo se encuentra, por el momento, s&#243;lo disponible en Portugu&#233;s: &lt;a href='https://journal.eticaycine.org/Shame-Um-filme-que-nomeia' class=&#034;spip_in&#034;&gt;Shame, Um filme-que-nomeia&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;
		
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	</item>
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		<title>Shame, Um filme-que-nomeia</title>
		<link>https://journal.eticaycine.org/Shame-Um-filme-que-nomeia</link>
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		<dc:date>2018-05-06T19:49:49Z</dc:date>
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		<dc:language>es</dc:language>
		<dc:creator>S&#233;rgio Laia</dc:creator>



		<description>&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Resumo&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A perspectiva deste documento sugere o pensamento das vezes os novos sintomas a partir do qual &lt;i&gt;Shame&lt;/i&gt; nos ensina o que &#233; nomeado como &#034;compuls&#227;o sexual&#034;. A dimens&#227;o do corpo, satisfa&#231;&#227;o e prazer &#233; abordada a partir de uma leitura na real, o resultado dos efeitos do capitalismo e da ci&#234;ncia. Os cortes de autor e detalhes do filme obra que lidam com solid&#245;es contempor&#226;neas e transmite o que a cl&#237;nica lacaniana pode dizer sobre ele.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Palavras-chave:&lt;/strong&gt; Compuls&#227;o sexual | Gozo | Corpo | Sintomas contempor&#226;neos.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;a href='https://journal.eticaycine.org/Shame-un-film-que-nombra' class=&#034;spip_in&#034;&gt;Versi&#243;n del Resumen en Espa&#241;ol&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;

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&lt;a href="https://journal.eticaycine.org/-Volumen-6-Nro-2-" rel="directory"&gt;Volumen 06 | Nro 2&lt;/a&gt;


		</description>


 <content:encoded>&lt;div class='rss_chapo'&gt;&lt;p&gt;Escola Brasileira de Psican&#225;lise y Universidad FUMEC&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;
		&lt;div class='rss_texte'&gt;&lt;p&gt;Quando sa&#237; do cinema, por ocasi&#227;o da primeira vez que vi &lt;i&gt;Shame&lt;/i&gt;, filme dirigido pelo diretor ingl&#234;s Steve McQueen, fui tomado por uma estranheza. N&#227;o conseguia dizer que havia gostado ou que era um bom filme, tampouco podia afirmar que n&#227;o havia gostado, nem que ele era ruim. Sem d&#250;vida, a extensa sequ&#234;ncia em que Carey Mulligan canta &lt;i&gt;&#8220;New York, New York&#8221;&lt;/i&gt; sempre me pareceu maravilhosa, mas um filme n&#227;o se reduz a uma sequ&#234;ncia, por mais extensa que ela seja...&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Volta e meia, me pegava pensando no filme at&#233; que, no dia seguinte em que o assisti pela primeira vez, pude concluir sobre o quanto ele &#233; excelente. Sua montagem entrecortada, tomada tanto pela lentid&#227;o quanto pela precipita&#231;&#227;o e, ao mesmo tempo, por uma precaridade de dados, digamos, biogr&#225;ficos, do protagonista Brandon, muito bem interpretado por Michael Fassbender, me pareceu evocar o mesmo ritmo e a mesma aridez com que muitos se apresentam, hoje, em nossos consult&#243;rios &#8211; h&#225; um sofrimento, inclusive intenso, como tamb&#233;m uma dificuldade, n&#227;o menos extrema, para &#8220;se livrar&#8221; do que acaba se impondo como um &#8220;mal&#8221; ao qual se est&#225; conectado, mas n&#227;o h&#225;, pelo menos de in&#237;cio, uma hist&#243;ria, um relato sobre como aquilo surgiu, uma contextualiza&#231;&#227;o minimamente subjetivada de como o corpo passou a ser tomado por aquilo que o enreda.&lt;/p&gt;
&lt;div class='spip_document_499 spip_document spip_documents spip_document_image spip_documents_center spip_document_center'&gt;
&lt;figure class=&#034;spip_doc_inner&#034;&gt; &lt;img src='https://journal.eticaycine.org/local/cache-vignettes/L500xH213/shame_-_steve_mcqueen_-_michael_fassbender-842af.jpg?1775191354' width='500' height='213' alt='' /&gt;
&lt;/figure&gt;
&lt;/div&gt;
&lt;p&gt;Assim, o filme &lt;i&gt;Shame&lt;/i&gt;, ao nos apresentar um homem &#224;s voltas com uma compuls&#227;o sexual que, por perturbar-lhe intensamente a vida, permite a Steve McQueen cham&#225;-la de &lt;i&gt;sex adiction&lt;/i&gt;, n&#227;o &#233; pura e simplesmente um filme sobre o que, na cl&#237;nica lacaniana, temos chamado de &#8220;novos sintomas&#8221;: ele &lt;i&gt;mostra como funciona&lt;/i&gt; uma forma de apresenta&#231;&#227;o de sintomas muito frequente nos nossos dias e, al&#233;m disso, ao se intitular &lt;i&gt;Shame (Vergonha)&lt;/i&gt;, inclusive pelo modo ao mesmo tempo sutil e incisivo como seu diretor utiliza dessa palavra, tal filme &lt;i&gt;apresenta-nos uma estrat&#233;gia&lt;/i&gt; que n&#227;o me pareceu distante daquela que n&#243;s, fazendo valer a orienta&#231;&#227;o lacaniana, procuramos imprimir diante de casos e situa&#231;&#245;es similares.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Essa minha conclus&#227;o sobre &lt;i&gt;Shame&lt;/i&gt; me pareceu ser um dos motivos que levou Ram Mandil, como Editor da revista &lt;i&gt;Correio&lt;/i&gt;, a me convidar para escrever esta resenha. Para atender a esse convite, vi o filme uma segunda vez, em DVD, o que me possibilitou fazer outros achados.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Enquadramentos &#8211; o que se imiscui, o que escapa e alguns escritos&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#201; not&#225;vel o modo como Steve McQueen utiliza a c&#226;mera para realizar &lt;i&gt;Shame&lt;/i&gt;. H&#225; muitos closes, sobretudo dos corpos, mas os enquadramentos jamais os apresenta explicita e inteiramente, inclusive nas cenas em que, pela adi&#231;&#227;o sexual de Brandon, os contatos entre os corpos tenderiam a convocar uma explicita&#231;&#227;o maior. Assim, ele nos apresenta o quanto Brandon &#233; tomado por um modo de satisfa&#231;&#227;o, um gozo que, embora imiscu&#237;do em seu corpo, acaba sempre lhe escapando e o obriga a tentar, de novo, sempre de forma ao mesmo tempo incessante e v&#227;. Logo, tal protagonista busca, como um ca&#231;ador contempor&#226;neo, a satisfa&#231;&#227;o sexual, quer circunscrev&#234;-la a seu corpo, mas, como no antigo ap&#243;logo de Aquiles e a tartaruga, jamais consegue alcan&#231;&#225;-la e, nesse percurso infernal, resta sempre s&#243; com seu corpo. S&#243; no sentido de solit&#225;rio e tamb&#233;m no sentido de que n&#227;o lhe sobra nada al&#233;m do que o corpo. Nesse contexto, &#233; relevante citar uma breve observa&#231;&#227;o de Steve McQueen sobre esse personagem, proferida por ocasi&#227;o de uma entrevista &#224; edi&#231;&#227;o de fevereiro de 2012 de &lt;i&gt;Dazed &amp; confused&lt;/i&gt; e que tamb&#233;m nos indica o quanto Shame pode nos ser &#250;til para a prepara&#231;&#227;o do pr&#243;ximo Congresso da Associa&#231;&#227;o Mundial de Psican&#225;lise, dedicado &#224; desordem no real provocada pela jun&#231;&#245;es do capitalismo com a ci&#234;ncia (Miller, 2012). Brandon &#8220;est&#225; em um meio de capitalismo e liberdade, usando seu corpo para ecoar isso, mas o que ele est&#225; fazendo &#233; criar sua pr&#243;pria pris&#227;o&#8221;(Woo, 2012).&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O aprisionamento de Brandon &#233; tamb&#233;m especialmente captado pela c&#226;mara de Steve McQueen quando ela enquadra esse protagonista no apartamento, sobretudo nas cenas iniciais, mas tamb&#233;m naquelas vividas com Sissy, sua irm&#227; (n&#227;o menos aprisionada) e ainda nas suas idas-e-vindas de metr&#244;. No apartamento, &#233; certo que o im&#243;vel, &lt;i&gt;clean&lt;/i&gt; e elegantemente decorado, &#233; pequeno, mas o corpo de Brandon, n&#227;o apenas pela dimens&#227;o do lugar onde mora, &#233; muitas vezes enquadrado de modo entrecortado pelas paredes, pelos objetos, de forma que ele nos &#233; apresentado sempre como literalmente entre-visto. Dentro do metr&#244;, vemos muito mais seu rosto em &lt;i&gt;close&lt;/i&gt;, mas h&#225; sempre um peda&#231;o de cartaz, um vidro ou uma parede com picha&#231;&#245;es que s&#227;o tamb&#233;m, com suas letras, recortados junto a essa face &#8211; h&#225; algo escrito que se interp&#245;e ao corpo, dando-se a ler ou n&#227;o e que, sem d&#250;vida, tende a passar despercebido pela &#234;nfase que o close d&#225; ao rosto ou a alguma cena de sedu&#231;&#227;o.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;No contexto desses escritos entrecortados, n&#227;o posso dizer que foi proposital, mas me pareceu curioso que, em uma das cenas iniciais no metr&#244;, quando ainda estamos sendo introduzidos &#224; pris&#227;o do modo de gozo de Brandon, a c&#226;mara focada em seu rosto acaba por enquadrar tamb&#233;m parte dos dizeres de um cartaz, prenunciando o que poderemos perguntar ao longo de todo o filme e mesmo depois, quando ele termina: &lt;i&gt;How is this possible?&lt;/i&gt;, ou seja, &#8220;Como isso &#233; poss&#237;vel?&#8221;. Nesse mesmo vi&#233;s, em uma sequ&#234;ncia mais pr&#243;xima do final, quando Brandon se precipita ainda mais intensamente em sua ca&#231;ada infernal, provocado pela forma como Sissy, sua irm&#227;, se imiscui em sua vida e perturba-lhe o modo de gozo, mas j&#225; prenunciando o advento do pior, poderemos entrever, em um cartaz, as palavras ao mesmo tempo ir&#244;nicas e, de novo, interpretativas da situa&#231;&#227;o: &lt;i&gt;improving, non stop&lt;/i&gt;, ou seja, &#8220;aperfei&#231;oando, sem parar&#8221;.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Uma can&#231;&#227;o, muita precipita&#231;&#227;o e muita mis&#233;ria&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#201; oportuno perguntar por que, em um filme marcado por atos intensa e perigosamente precipitados, bem como por uma grande mis&#233;ria subjetiva de seus personagens, somos tomados, durante uns 4 minutos e meio, por um close do belo rosto de Carrey Mullingan cantando lindamente, mas num ritmo como jamais havia se escutado antes, a can&#231;&#227;o que Liza Minelli e, algum tempo depois (de modo ainda mais contundente), Frank Sinatra consagraram como uma esp&#233;cie de &#8220;hino&#8221; a Nova York. Como se n&#227;o bastasse essa longa e linda sequ&#234;ncia, a letra de &lt;i&gt;New York, New York&lt;/i&gt;, talvez novamente mostrando-nos o modo como os escritos tamb&#233;m devem ser contado como um elemento a mais de &lt;i&gt;Shame&lt;/i&gt;, &#233; integralmente traduzida na legenda em portugu&#234;s.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Trata-se de uma can&#231;&#227;o que evoca uma esperan&#231;a de pertencimento a uma cidade, o sonho de ser bem sucedido em Nova York porque, quando isso acontece l&#225;, pode se realizar em qualquer outro lugar. Composta por Kander e Elb para a trilha sonora do filme &lt;i&gt;New York, New York&lt;/i&gt;, dirigido por Scorsese em 1971, essa can&#231;&#227;o retorna agora ao filme de Steve McQueen. Atrav&#233;s dela e do modo como &#233; entoada em &lt;i&gt;Shame&lt;/i&gt;, escutamos a busca de Sissy por um pertencimento a um homem, a seu irm&#227;o, a uma fam&#237;lia, a Nova York, mas tamb&#233;m o quanto que, mesmo j&#225; podendo se corporificar como parte dessa cidade e se colocar como o que tal can&#231;&#227;o apresenta nos termos de &lt;i&gt;king of the hill&lt;/i&gt; (&#8220;rei do peda&#231;o&#8221;), &lt;i&gt;top of the heap&lt;/i&gt; (&#8220;o que est&#225; por cima&#8221;), &lt;i&gt;top of the list&lt;/i&gt; (&#8220;topo da lista&#8221;), Brandon, seu irm&#227;o, continua sem lugar porque a realiza&#231;&#227;o desses ideais ou a significa&#231;&#227;o f&#225;lica em jogo nessas express&#245;es n&#227;o conseguem responder o real em jogo no modo de satisfa&#231;&#227;o que excessivamente o aprisiona na pr&#243;pria e suposta liberdade de gozar.&lt;/p&gt;
&lt;div class='spip_document_500 spip_document spip_documents spip_document_image spip_documents_center spip_document_center'&gt;
&lt;figure class=&#034;spip_doc_inner&#034;&gt; &lt;img src='https://journal.eticaycine.org/IMG/jpg/shame_jpg_550x275_crop_q85.jpg?1754362453' width='500' height='250' alt='' /&gt;
&lt;/figure&gt;
&lt;/div&gt;
&lt;p&gt;A forma como &lt;i&gt;New York, New York&lt;/i&gt; &#233; inserida em &lt;i&gt;Shame&lt;/i&gt; tamb&#233;m nos d&#225; acesso a alguns tra&#231;os de humanidade e subjetividade na mis&#233;ria que permeia as vidas de Brandon, de Sissy ou mesmo do chefe do primeiro. Escutando sua irm&#227; cantando, uma l&#225;grima verte dos olhos de Brandon que, em seguida, vai se esfor&#231;ar para n&#227;o se mostrar t&#227;o afetado pelo que escutou e viu. Ap&#243;s cantar, Sissy se senta &#224; mesa com o irm&#227;o, o chefe dele e ficamos sabendo que ela n&#227;o &#233; de Nova York, j&#225; morou em Los Angeles (para onde pensa regressar) e que, de fato, vem de New Jersey. Bem mais adiante, quando Brandon ensaia, desajeitadamente, iniciar o relacionamento com uma mulher sem aprision&#225;-la no seu modo de gozo marcado pela adi&#231;&#227;o sexual, ele lhe revelar&#225; que nasceu de fato na Irlanda e, assim, podemos verificar o quanto a busca de pertencimento e de sucesso entoada em &lt;i&gt;New York, New York&lt;/i&gt; foi tamb&#233;m a sua, embora sua realiza&#231;&#227;o n&#227;o lhe tenha garantido um lugar digno para seu desejo. Por fim, em uma das reduzidas informa&#231;&#245;es que temos sobre o passado de Brandon e Sissy, ela lhe diz que &#8220;n&#227;o s&#227;o pessoas ruins&#8221; &#8211; apenas &#8220;vieram de um lugar ruim&#8221;.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Que lugar &#233; esse, n&#227;o sabemos e tampouco aqueles que dele vieram se disp&#245;em a revel&#225;-lo. Entretanto, associado &#224; parceria e &#224; ang&#250;stia que a presen&#231;a de Sissy evoca em Brandon, verificamos o quanto a adi&#231;&#227;o sexual do irm&#227;o, seu isolamento do mundo na pris&#227;o do seu gozo, s&#227;o um modo de se defender do que a irm&#227;, como mulher, lhe corporifica como o que Lacan chamou da imposs&#237;vel rela&#231;&#227;o entre os sexos. Por sua vez, a insist&#234;ncia n&#227;o menos perigosa e solit&#225;ria com que Sissy tende a buscar o irm&#227;o (ou mesmo outros homens que, como o chefe dele, n&#227;o deixam de duplic&#225;-lo), sempre recebendo em troca o acolhimento e a rejei&#231;&#227;o como inevit&#225;veis, &#233; o modo feminino e, como tal, devastador, de ela se defender do imposs&#237;vel da rela&#231;&#227;o sexual.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Um c&#237;rculo e outra palavra escrita&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A precipita&#231;&#227;o de um acidente parece introduzir uma tr&#233;gua entre os irm&#227;os e, de modo particular, na ca&#231;ada acelerada com que Brandon buscava se aprisionar exercendo a liberdade que o capitalismo e a ci&#234;ncia prometem com rela&#231;&#227;o &#224; satisfa&#231;&#227;o sexual. A rua, um dos locais para tal ca&#231;ada, torna-se o lugar onde ele cai, de joelhos e desesperado, ap&#243;s viver um acontecimento traum&#225;tico. Em seguida a essa cena e por um brev&#237;ssimo espa&#231;o de tempo, Steve McQueen faz a tela do cinema escurecer, o que me permite evocar o breve apagamento dessa outra tela, a do computador, espa&#231;o tecnol&#243;gico em que a ca&#231;ada de Brandon perigosa e, nesse contexto, virtualmente se localizava ao longo do filme. A sequ&#234;ncia final de Shame, novamente em um metr&#244;, n&#227;o deixa de evocar uma que se passa mais no in&#237;cio: l&#225; est&#227;o Brandon, com seu rosto focado em &lt;i&gt;close&lt;/i&gt;, bem como, com outra cor de cabelo, outro penteado e outra roupa, uma mulher que ele havia procurado seduzir e que havia dele se perdido na multid&#227;o da esta&#231;&#227;o de metr&#244;. Tudo parece diferente, mas ao mesmo tempo igual, ainda que a sequ&#234;ncia final se interrompa um pouco antes do que acontecia naquela que se encontrava mais no in&#237;cio do filme. Assim, Steve McQueen faz um corte na sequ&#234;ncia final que ciclicamente remete-nos &#224; primeira e essa suspens&#227;o me parece funcionar como um corte em uma sess&#227;o anal&#237;tica lacaniana. Esse corte se faz ao se detectar a emerg&#234;ncia de uma repeti&#231;&#227;o, mas n&#227;o &#233; necessariamente uma garantia de que a repeti&#231;&#227;o n&#227;o vir&#225; e que, no caso do filme, como em um final feliz, Brandon teria podido, ent&#227;o, se livrar da pris&#227;o de seu modo de gozo.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A estrat&#233;gia para a conquista de alguma liberdade nesse contexto viria, a meu ver, do confronto entre o modo de gozo onde um sujeito se v&#234; aprisionado e uma palavra que Steve McQueen escreve tanto no in&#237;cio quanto no final de seu filme. No in&#237;cio, logo que Brandon sai, solit&#225;rio e nu, dos len&#231;&#243;is que cobriam-lhe parte do corpo, essa palavra &#233; escrita, letra a letra, na sua cama. No final, &#233; ela tamb&#233;m que ser&#225; escrita quando a tela escurece para indicar-nos, desta vez, que o filme acabou. Essa palavra &#233; o t&#237;tulo mesmo do filme e que, ao longo deste, n&#227;o &#233; pronunciada uma vez sequer. Ela, portanto, no filme, n&#227;o passa de um t&#237;tulo. No Brasil, pareceu-me interessante que esse t&#237;tulo sequer foi traduzido, reiterando, pelo menos para os que n&#227;o falam ingl&#234;s, a dimens&#227;o impronunci&#225;vel que ela tem para os personagens de &lt;i&gt;Shame&lt;/i&gt;, mesmo que eles sejam angl&#243;fonos.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Tal confronto que n&#227;o acontece com Brandon ou mesmo com sua irm&#227;, entre o modo de gozo e a vergonha &lt;i&gt;(shame)&lt;/i&gt;, &#233; o que Steve McQueen me parece realizar, em ato, com &lt;i&gt;Shame&lt;/i&gt;. Ele n&#227;o apresenta personagens envergonhados por seus modos de satisfa&#231;&#227;o, tampouco os faz claramente se envergonharem ao longo do trajeto que o pr&#243;prio filme perfaz. Entretanto, esse filme de Steve MacQueen e sua utiliza&#231;&#227;o da palavra &lt;i&gt;Shame&lt;/i&gt; me evoca o que Lacan havia realizado em 1969-1970 e que pude trabalhar em outro texto (Lacan, [1969-1970]1992), neste mundo tomado pela deprecia&#231;&#227;o e pela falta de vergonha com rela&#231;&#227;o ao significante-mestre, &#233; decisivo localizar, nomear e fazer esse significante aparecer, evidenciando que, na liberdade que as bodas do capitalismo com a ci&#234;ncia consagram ao gozo de cada um, processa-se o aprisionamento a esse senhor que, com a psican&#225;lise freudiana, j&#225; podemos nomear como sendo o supereu que, nos termos de &lt;i&gt;New York, New York&lt;/i&gt;, neste mundo destitu&#237;do de referenciais que possam orientar os sujeitos em seus modos de satisfa&#231;&#227;o sexual, tamb&#233;m pode tomar a forma de o &lt;i&gt;king of the hill&lt;/i&gt; (&#8220;rei do peda&#231;o&#8221;), o &lt;i&gt;top of the heap&lt;/i&gt; (&#8220;o que est&#225; por cima&#8221;), o &lt;i&gt;top of the list &lt;/i&gt;(&#8220;topo da lista&#8221;).&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Refer&#234;ncias&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Lacan, J. [1969-1970]1992), &lt;i&gt;O semin&#225;rio. Livro 17: o avesso da psican&#225;lise&lt;/i&gt;. Rio de Janeiro: Zahar, 1992, p. 169, 172, 180, 184. Para meu texto: LAIA, S. An&#225;lise e interpreta&#231;&#227;o de uma efus&#227;o coletiva: os discursos, a a&#231;&#227;o lacaniana a partir de maio de 1968 e de suas consequ&#234;ncias. &lt;i&gt;Curinga&lt;/i&gt;, n. 28, Belo Horizonte, 2009, p. 97-113.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Miller, J.-A. (2012), Confer&#234;ncia a ser publicada em vers&#227;o impress&#227;o pela revista &lt;i&gt;Op&#231;&#227;o Lacaniana&lt;/i&gt; sob o t&#237;tulo &#8220;O real no s&#233;culo XXI&#8221;, mas j&#225; dispon&#237;vel, em vers&#227;o na internet (acesso em 3 de agosto de 2012):&lt;br class='autobr' /&gt;
&lt;a href=&#034;http://www.wapol.org/pt/articulos/Template.asp?intTipoPagina=4&amp;intPublicacion=38&amp;intEdicion=13&amp;intIdiomaPublicacion=9&amp;intArticulo=2493&amp;intIdiomaArticulo=9#notas&#034; class=&#034;spip_url spip_out auto&#034; rel=&#034;nofollow external&#034;&gt;http://www.wapol.org/pt/articulos/Template.asp?intTipoPagina=4&amp;intPublicacion=38&amp;intEdicion=13&amp;intIdiomaPublicacion=9&amp;intArticulo=2493&amp;intIdiomaArticulo=9#notas&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Woo, K. (2012), Shame on Fassbender. &lt;i&gt;Dazed &amp; confused&lt;/i&gt;, february 2012. Acesso dispon&#237;vel por internet em 3 de agosto de 2012: &lt;br class='autobr' /&gt;
&lt;a href=&#034;http://www.dazeddigital.com/artsandculture/article/12601/1/shame-on-michael-fassbender&#034; class=&#034;spip_url spip_out auto&#034; rel=&#034;nofollow external&#034;&gt;http://www.dazeddigital.com/artsandculture/article/12601/1/shame-on-michael-fassbender&lt;/a&gt;.&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;
		
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